
Arte contemporânea: o novo sempre vem
por Mirtes Marins de Oliveira
Olá, eu sou a Mirtes Marins de Oliveira, pesquisadora, curadora e professora. A partir de agora, vamos passear pela arte contemporânea por meio de contranarrativas, que vão de encontro às histórias hegemônicas, e artistas da geração atual que, por motivos que falaremos adiante, formam uma nova categoria de históricos contemporâneos. Este é um audioguia preparado por mim para a SP-Arte, com apoio da I Love Prio para a 21a edição da feira.
A produção artística nos dias atuais é percebida em sua complexidade e pluralidade de perspectivas. Em nossa sociedade, as trocas e enfrentamentos de visões de mundo são sistemáticas e intensas. Elas geram posicionamentos, afirmação de valores e promovem novos entendimentos sobre a arte, suas práticas e suas funções sociais.
Longe de algumas tendências modernistas que propunham para a arte uma linguagem universal e uma finalidade utópica, a arte do pós Segunda Guerra oferece diversidade de pontos de vista. É uma oportunidade de pensar o planeta de múltiplas perspectivas, evocando a imaginação e a transformação.
Entre as inúmeras possibilidades de recortes, escolhemos dois: contranarrativas e históricos contemporâneos.
As Contranarrativas tratam de possibilidades de compreensão da arte e seus significados a partir das diferenças étnicas, culturais, históricas e materiais. São histórias que desdizem aquelas hegemônicas e buscam reconfigurar o campo artístico. Provocam deslocamentos de perspectiva que podem transformar o entendimento dos conceitos de arte, do artista e de seus papéis. E, também, da própria sociedade.
Já Históricos Contemporâneos aponta para a rapidez e volatilidade da produção da vida. Neste contexto, artistas considerados contemporâneos fazem parte de um universo de referências que formam outra camada entre os modernismos e as produções do presente. Mesmo próximos, já se apresentam distantes e históricos por trabalharem a partir de temáticas, materiais e contextos que nem todas as gerações mais jovens vivenciaram, a não ser por livros e documentários, ou pela própria história recontada inúmeras vezes.
Vamos começar por nosso roteiro de Contranarrativas, apresentando alguns artistas mostrados em galerias presentes na SP-Arte em 2025, a partir do 2o Pavimento do edifício. Quero lembrar que uma situação expositiva é diferente da leitura, ou mesmo só a ação de olhar para as imagens, de um livro, por exemplo. Nas mostras, há o impacto do ambiente: iluminação, sonoridades, fluxos, pessoas circulando em ritmos variados. Essa ambiência faz toda a diferença em nosso entendimento sobre o que vemos. Observar a experiência da feira contribui para nossa compreensão sobre a vida contemporânea e sobre os papeis da arte nesse contexto. A SP-Arte é uma exposição que comporta outras, várias.

Jimmie Durham para LABINAC, Arboletier, 2021, aço inoxidável, vidro Murano, luz de LED e vidro dicróico. Foto: José Pelegrini
Começamos por um artista que dá ênfase, em sua obra, ao contexto contemporâneo, Gabriel Massan, que está presente na recém inaugurada galeira Yehudi Hollader-Pappi, localizada em São Paulo e focada em vídeo, performance, pintura e escultura, presente na Feira no Stand E05.
Massan nasceu no Rio de Janeiro e vive atualmente em Berlim. Seu trabalho tem como característica o diálogo com o universo das tecnologias computacionais em sua especificidade própria, que inclui os videogames, a animação 3D, sonoridades específicas, que resultam em um trabalho que enfatiza, em geral, as instalações interativas e imersivas. Essa prática, no entanto, não fica circunscrita a um fascínio tecnológico. Pelo contrário, Massan observa, em seu entorno, as desigualdades e, em seus trabalhos, busca criar mundos próprios, provocar reflexões a partir de contextos culturais e, segundo suas próprias palavras, em dissonâncias e distorções, particularmente na relação de imigrante que vive na Europa e a especificidade de ser latino-americano de origem afro-indígena. Tais desigualdades, se transformam, em suas propostas, na experiência das diferenças como possibilidade de compreender o mundo de uma outra forma.
Jovem, Massan, no entanto tem sua obra aclamada com exposições individuais na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2024-2025), no Laboratorio Arte Alameda (2024), no Outernet Arts (2023) e na Serpentine Galleries (2023), em Londres.
Continuando nossa visita, proponho a visitação da galeria Martins&Montero, no stand F13, que apresenta Jimmie Durham para LABINAC. Jimmie Durham, falecido em 2021, foi um importante ativista e artista norte-americano, envolvido nas lutas pelos direitos dos povos originários. Desde os anos 1990 vivendo na Europa, criou juntamente com sua companheira, a também artista e ativista Maria Thereza Alves, o LABINAC, idealizado por ambos como um coletivo de design com o objetivo de apoiar o trabalho artesanal dos povos indígenas latino-americanos e construir objetos que ficariam entre o mobiliário e a escultura. Interessado na materialidade dos artefatos e suas possibilidades de reuso, o artista projetava e produzia alguns deles, atividade que já desenvolvia desde a infância. Destacado artista contemporâneo, recebeu em 2019 o Leão de Ouro da Bienal de arte de Veneza.
Na galeria Leme (stand D07), encontramos uma obra da série Máscaras Mestizas, de 2024, da artista peruana Sandra Gamarra Heshiki que foi exibida no Pavilhão Espanhol na 60o Bienal de Veneza. O trabalho dessa artista apresenta preocupações que permeiam nosso trânsito pela feira já que ela, como um pano de fundo, constroi suas obras a partir da percepção de modelos expositivos e artísticos que se consagraram, mas que também mostram seu caráter opressor, em particular nos processos de colonização das Américas. Para Agustin Perez Rubio, curador do Pavilhão Espanhol, a série Máscaras Mestizas, expõe a prática colonial do retrato como, em suas palavras, fábrica de representação. Tais retratos, amplamente conhecidos, da aristocracia e dos monarcas, funcionam como capsulas do tempo que buscam imortalizar normas políticas e sociais. Gamarra estabelece nesses trabalhos seu exercício de contranarrativa a partir de uma simulação crítica e contundente das narrativas do mundo da arte, utilizando e evidenciando suas estruturas de persuasão.

Nadia Taquary, Série Oriki é o que não se vê (2021-2024), madeira ipê, bronze 70, palha e lagdba. Foto: divulgação
A obra de Carlos Garaicoa, presente no stand E07, da Galeria Almeida & Dale, é da série Puzzles, realizada entre os anos 2018 e 2022. Essa série, do ponto de vista de sua materialidade, apresenta fotografias de arquitetura e espaços urbanos deteriorados impressas em quebra-cabeças e apresentando, em seu fundo, a mesma imagem em uma versão desbotada e sem definição. Colocadas em uma caixa de acrílico, além das duas imagens, há, no primeiro plano, partes desmontadas do quebra-cabeças, apontando para a decadência das cidades, temática relevante em sua obra. A obra específica, denominada Table and Lyon Mountain, refere-se Table Mountain e Lyon’s Head, montanhas localizadas no Table Mountain National Park.
O trabalho de Garacoia aponta, portanto, de forma crítica para o legado modernista no qual planejar a cidade era também organizar a sociedade. Projeto utópico desmontado pelas condições econômicas e políticas ferozes que transformaram o espaço urbano e edifícios em ruínas. Garaicoa é cubano com três décadas de atuação e inúmeras participações nas mais importantes mostras internacionais, como a Documenta 11, em 2002 e a 14, em 2017, além de participação em bienais, como as de Veneza e São Paulo.
Na Galeria Verve, stand D11, a artista baiana Nádia Taquary apresenta trabalhos da série “Oriki: é o que não se vê”, peças tridimensionais conectadas com a tradição do culto aos orixas. Orikis são saudações aos deuses iorubanos que, na sua prática, evocam a proteção e poder dos orixás. Em suas obras, Nádia Taquary destaca as heranças ancestrais e valoriza o papel - que sofreu apagamento - das mulheres negras na trasmissão de cultura. No trabalho apresentado, a artista evoca o culto das Iyami, especificamente da sociedade Gelede, na qual mulheres utilizam máscaras, representadas nas obras da artista pelo bronze na materialidade das peças.
O culto das Iyami celebra as Mães Ancestrais, que foram, em diferentes contextos patriarcais, perseguidas como feiticeiras e praticantes de malefícios estabelecendo uma compreensão inadequada sobre essas praticas resultando em preconceitos e violências. Taquary, com essas e outras obras, valoriza, celebra e recupera, portanto, o poder feminino ancestral das mulheres negras. Tais obras circulam atualmente pelo mundo com exposições na Bienal de Sydney, no Museu de Arte do Rio (MAR), no Institute for Studies on Latin American Art – ISLAA (Nova York, EUA) e no Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, entre outros.
Finalizando nosso roteiro de Contranarrativas, nos dirigimos para a galeria Aura, no stand E09, no qual podemos tomar contato com a obra de Rommulo Vieira da Conceição, artista baiano que enfrenta de forma deliberada narrativas consagradas e cristalizadas dos modernismos. Formado em Geologia, Rommulo observa, reforça e critica, em suas obras, certas qualidades presentes na produção modernista elaboradas a partir da valorização da universalidade, da funcionalidade e da confluência da arte com o design. Em direção oposta, o artista inverte tais premissas, demonstrando que, em suas obras, contemporâneas o que se valoriza é o oposto, a localização cultural longe do pressuposto universalista e a disfuncionalidade, trazendo assim, elementos visuais utilizados com frequencia no design modernista, como as formas geométricas e cores primárias para o campo da arte.

Francis Alÿs, The Sign Painting Project. Foto: Ding Musa
Passamos agora a tratar de artistas que podemos denominar Históricos Contemporâneos, alguns atuantes e que, por influência da circulação e debate sobre suas obras já se tornaram históricos, servindo de referências para o entendimento da arte contemporânea pelas novas gerações artistas. Vamos começar por uma visita à galeria Luisa Strina, no stand E03, que vai apresentar obras de Cildo Meireles. Meireles iniciou sua carreira muito jovem e com polêmicas, como a instalação Tiradentes: Totem - Monumento ao Preso Político, em 1970, apresentada na mostra Do corpo à terra, organizada por Frederico Morais em Belo Horizonte.
A obra apresenta elementos temáticos que, de certa forma, são recorrentes em seus trabalhos, como a política, a história do País, as estratégias do capitalismo presentes nos cotidianos, as violências, entre muitos outros. Nesse sentido, sua multifacetada produção foge de uma caracterização formalista que permite que as pessoas identifiquem algo como um padrão visual em suas obras. Pelo contrário, cada obra é temática materialmente narrativa e universo específico, exigindo dos participantes engajamento reflexivo. A importância e circulação de seus trabalhos é imensa, com reconhecimento internacional e forte influência sobre a formação de outros jovens artistas.
A galeria Galatea, no stand F06, traz o trabalho do artista belga Francis Alys de uma série denominada The Sign Painting Project, pinturas realizadas na Cidade do México, onde o artista vive, durante os anos 1993-1997 em colaboração com os pintores de letreiros comerciais, chamados rotulistas, Juan Garcia, Enrique Huerta e Emilio Rivera. O processo é constituído por pinturas de pequenas dimensões realizadas por Alys, que eram ampliadas e reelaboradas pelos rotulistas, resultando em mais de uma centena de obras.
Alys é um artista extremamente crítico que, em seus trabalhos, trata de aspectos relacionados ao valor e a própria definição da arte e, ao mesmo tempo, exibe camadas de possibilidades de significados relacionados às práticas sociais. A galeria apresenta o díptico Cat nº9 (1997) em colaboração de Alys com Juan Garcia, do grupo original dos rotulistas que realizaram os trabalhos nos anos 1990. Cat n.9 provoca reflexões sobre uma arte colaborativa e dialógica que ao mesmo tempo coloca em xeque a diferenciação entre a arte comercial e outra, realizada por artistas com formação tradicional e consagrada pela crítica.
Mina de verde 03 (2006-2021) é o trabalho de Amélia Toledo, da série Minas de cor, mostrado na galeria Nara Roesler, stand E0. A obra é um exemplo do interesse da artista, falecida em 2017, nos aspectos cromáticos e poéticos dos elementos naturais, que a artista coletava em profusão, como as pedras e as conchas, frequentes em muitas de suas obras. Esse procedimento inaugurou, quando da circulação dessas obras, uma relação com visitantes de dimensão hipnótica e imersiva, possibilitando o trânsito por um mundo de fantasia e, estimulando em jovens artistas o olhar para os elementos da natureza e da paisagem.
A galeria enfatiza a trajetória de formação da artista, que criou um universo próprio de elaboração, após período inicial de aprendizado tradicional com outros artistas de relevância na história da arte brasileira como Anita Malfatti, Yoshiya Takaoka e Waldemar da Costa, além de trocas geracionais com artistas do Neoconcretismo como Hélio Oiticica e Lygia Pape.

Olga de Amaral, FiberWall (1983). Foto: Galeria CasaZirio
Continuando com nosso roteiro de Históricos Contemporâneos nos voltamos para o stand F05 da galeria Vermelho, que apresenta trabalhos de Carmela Gross, cuja trajetória tem início ao final dos anos 1960 em contexto experimental e iconoclasta, a partir de exibição na Rex Gallery & Sons. Artista com circulação mundial, destaca-se por sua atuação na Universidade de São Paulo, como professora do departamento de Artes Visuais, contribuindo por décadas na formação de inúmeros artistas. Os trabalhos de Gross enfocam os aspectos urbanos e arquitetônicos a partir de uma visada crítica, política e com sutis irônias. Busca a provocação de estranhamentos, a partir de localizações das obras, muitas vezes em espaços públicos e/ou institucionais, estimulando também a percepção, por parte dos passantes, sobre a especificidade dos lugares.
Seguimos agora para o stand D10, que apresenta a obra Retângulos 3 (1968), de Ascânio MMM pela galeria Silvia Cintra + Box 4. A obra é um exemplo significativo da tradição geométrica brasileira, que caracteriza o trabalho desse artista, mas também um entendimento de certa produção brasileira e latino-americana fora do continente. Realizado a partir dos fundamentos da herança construtiva e concreta, para as quais, compreende-se a arte como análoga à ciência, em particular a Matemática, valorizada por seus aspectos racionalistas e fugindo de dimensões emocionais ou expressionistas. Tal concepção também alinharia a arte ao mundo industrializado e, portanto, em forte diálogo com a produção em design e arquitetura de certo recorte modernista.
Por fim, encerrando o roteiro Históricos Contemporâneos, a galeria sediada na Colombia, Casa Zirio Gallery, presente no stand F11, apresenta a incrível produção de Olga de Amaral, exibida em 2024 na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris. Na SP-Arte, Amaral mostra Fiber Wall, de 1983, exemplo contundente de seu trabalho, que redefiniu historicamente a arte textil a partir do uso de materiais como folhas de ouro e de experimentação e radicalização a partir das próprias tecnicas texteis. Como resultado, Olga de Amaral entrega peças monumentais, que ampliam os entendimentos sobre uma arte produzida a partir das fibras. Essa virada recoloca a produção textil no circuito de produção da arte contemporânea e ultrapassa o estatuto daquela prática que, no contexto modernista, foi confinada ao campo de uma arte realizada por mulheres. A materialidade, monumentalidade e experimentalismo das obras de Olga de Amaral, desdizem tais concepções e colaboram para um entendimento mais amplo e diverso da categoria arte.